domingo, 8 de março de 2009

O visitante .












O senhor gordo tentou argumentar com o segurança do portão principal da entrada de visitantes do então desativado campo de concentração de Auschwitz.
Ele mantinha a mão sobre o chapéu, para impedir que o vento o leva-se.
-Não senhor- explicou o segurança-, desculpe, mas, o campo esta fechado para visitação... recebemos um aviso de que há uma forte tempestade de neve se aproximando.
O senhor gordo agradeceu, deu meia volta e começou a andar na direção do estacionamento, desapontado devido à viagem perdida.
Enquanto caminhava, reparou em alguém parado junto ao alambrado. Alguém que não estava lá quando havia chegado.
Mais um visitante incauto que iria perder a viagem!
Achou por bem se aproximar e avisá-lo á respeito do fechamento do campo naquele dia.
Era um homem de altura mediana, usava um pequeno chapéu de feltro preto, sobretudo de lona cinza e um cachecol preto, que encobria todo o seu rosto, deixando apenas os olhos á mostra.
-Olá!-disse o senhor gordo, sem obter resposta –
-O amigo deve ter vindo para visitar o campo também, não?
O outro homem continuava imóvel, olhar fixo na direção do campo.
-Bem, sinto informá-lo, mas, hoje eles fecharam... esta vindo uma tempestade forte,sabe?
Sem resposta, sem atenção.
-Bem... meu nome é Izaia Juzerman – disse estendendo a mão direita-
O outro homem olha para a mão estendida, ergue um olhar severo, sem retribuir ao cumprimento.
-Ah... você deve estar com bastante frio nas mãos...eu não o condeno,este inverno esta sendo um dos mais rigorosos!
O senhor gordo mete a mão dentro do casaco, retira de lá uma pequena garrafa de bolso e a destampa.
-É vodka, aceita?Eu sempre trago um pouco comigo... ajuda a espantar o frio,sabe?
O outro homem movimenta a cabeça de forma negativa.
-Esta bem – diz o gordo, tirando uma golada de vodka e guardando novamente a garrafinha –
-Veio prestar homenagem a algum amigo ou parente, ou apenas por curiosidade?
-Sabe... meu pai morreu ai...e minha mãe,só sobreviveu por que sabia tocar violino...os nazistas a colocaram na orquestra do campo.
O homem continuava a olhar para frente.
Eu sobrevivi graças a minha mãe. Quando os nazistas entraram em Varsóvia,ela me colocou em um buraco no assoalho da sala,fui encontrá-la novamente,dois anos após o final da guerra!
Nada!Sem resposta, sem atenção.
-Ali dentro – continuou o senhor gordo –existem salas com despojos dos prisioneiros!
-Há salas repletas de sapatos, outra com pares de óculos, roupas, e malas.
Se você olhar a sala das malas, verá a mala que pertenceu ao meu pai... esta escrito “P.Juzerman”...P de Petras...
Nenhuma resposta.
-Já sei, já sei – disse o gordo agitando o indicador no ar – eu sei quem é você!
O outro homem volta um olhar de pouco interesse.
-Você foi um prisioneiro daí também... e não fala por que os nazistas arrancaram a sua língua em uma daquelas experiências macabras que eles faziam,não é?
Resposta negativa com a cabeça.
-Os alemães eram uns malditos!Hitler então era um covarde!Sabe, tem gente que acredita que ele não esta morto!
-Dizem que os corpos achados não eram dele e Eva Braun!
O outro homem volta um olhar severo.
-E sabe o que eu ouvi também?Ouvi que Eva Braun era um homem vestido de mulher!
-Veja só!E Hitler perseguia os homo sexuais!Não que eu tenha algo a favor, mas, você entende...
O vento soprou mais forte, flocos de neve começavam a rodopiar ao redor dos homens.
-É... a tempestade se aproxima...não há o por que ficar perdendo tempo aqui...adeus!
Disse o homem gordo, estendendo a mão direita novamente, e, mais uma vez, ficando com a mesma no ar, sem resposta.
Meio constrangido, ele diz;
-Você deve estar com muito frio nas mãos mesmo!Bem, de qualquer forma, foi um prazer conhecê-lo!
Disse isso retirando novamente a pequena garrafa do bolso do casaco, virou-se e começou a andar na direção do estacionamento, jogando a cabeça para traz e tirando uma golada da bebida.
O outro homem ficou ali, observando enquanto o senhor gordo se afastava.
Ele levou a mão direita lentamente á altura do rosto, com o dedo indicador á guisa de gancho, puxou o cachecol, deixando o rosto totalmente á mostra.
Não se via agora um olhar severo, mas sim, um olhar cheio de ódio, em um rosto enrugado, castigado pelo tempo e um pequeno bigode quadrado, repleto de fios grisalhos.
( Este conto participou do concurso talentos literários,promovido pelo jornal "Folha de Vila Prudente",em dezembro de 2008)

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