quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O NACIONALISTA - PARTE 4

O NACIONALISTA. ( Parte 4 )

Que idade teria aquela menina?
Treze?Quatorze anos??
Eu não sei!
Só sei que comecei a ouvir os gritos dela quando ainda estava a uns cinqüenta metros de distância daquela rua sem saída.
Algumas pessoas olhavam para a rua,viravam o rosto e apressavam o passo.
Eu olhei para o interior da rua quando me aproximei,e pude ver os dois camisas vermelhas ( milicianos)que atacavam a menina!
Um deles a segurava por trás,pelos braços.
O outro,abaixava as calças e a calcinha da menina.
A menina gritava,pedia socorro!
Ela implorava para que não fizessem aquilo com ela!
- Cala a boca vagabunda! - berrou o miliciano que estava á frente dela,desferindo no rosto da menina uma violenta bofetada!
Normalmente os milicianos levavam as mulheres para o quartel da milícia para violentá-las!
O governo comunista do PT dava tanta segurança para os marginais que compunham o corpo miliciano,que agora eles nem se importavam se estavam na rua e em plena luz do dia para cometer as suas atrocidades!
Fiquei ali parado por alguns segundos,apático e alheio ao que acontecia na minha frente!
A menina continuava a gritar,e o miliciano a esbofeteava novamente gritando "cala a boca"!
De repente veio a minha mente a imagem de minha filha!
Hoje era aquela menina,amanhã,poderia ser ela!
Olhei ao redor,vi no canto da calçada alguns restos de construção abandonados.
Entre a areia e blocos havia um pedaço de vergalhão de uns 60 cm!
Eu peguei o pedaço de ferro,segurei com fôrça!
Adentrei á rua em direção aos milicianos.
Meu coração batia rápido!
Eu não tinha certeza do que dizer ou o que fazer!
Eu parei a uns três metros dos milicianos.
Aquele que segurava a menina com a chave de braço em seu pescoço falou:
- Ai "Giba",tem platéia prá assistir!- disse ele ao outro com um sorriso no rosto se referindo a mim -
O outro miliciano se voltou para mim,fechou o semblante e perguntou:
- O que foi cidadão??Perdeu alguma coisa aqui??
Meu coração disparava!
Os olhos da menina imploravam por socorro!!
- Solta ela!!- disse, inseguro -
- Espera ai! - disse o miliciano se aproximando de mim -
- O que o cidadão disse??Eu não ouvi!!- disse ele levando a mão em forma de concha ao ouvido com desdém -
- Eu falei para soltar a menina!- repeti,com firmeza -
O miliciano se voltou para aquele que segurava a menina,e rindo disse:
- É louco!
- O cara é herói "Giba" - completou o outro - É o " Homem Aranha"!
Os dois riram!
- " Homem Aranha" não!- disse o que estava á minha frente - Quero ver se ele é o " Homem de Ferro !"
O miliciano meteu a mão por traz das costas e de lá tirou uma faca de caça de uns 50 cm!
- Vem cá herói - começou ele movimentando a faca no ar - eu vou te cortar e depois vou cortar suas bolas e enfiar na boca dessa vagabunda!
- E vai ser culpa sua!
O outro miliciano ria!
- Corta ele " Giba"!- gritava ele entre risos -
Nós nos olhávamos nos olhos!
Eu segurava a barra de ferro com fôrça!
O miliciano dava golpes com a faca no ar,tentando me acertar.
Eu desviava como podia!
Eu não sabia lutar!
Eu não sabia o que fazer!!
Medo,insegurança e arrependimento tomaram conta de mim!
O miliciano passava a faca no ar,rápido,com violência!
Em dado momento eu senti o impacto da lâmina na minha barriga!
Uma mancha quente e vermelha tomou conta do tecido rasgado da camisa,formando um circulo.
Entrei em desespero!
O outro miliciano gritava e ria!
- Mata ele " Giba",mata ele!!
O olhar do meu oponente era insano!
Ele sustentava um sorriso provocante no rosto!
Eu quase conseguia ouvir o som da faca cortando o ar!
Nesse momento,reuni minhas fôrças e desferi um golpe com a barra de ferro!
De início eu não acertei nada!
Mas uma fôrça tomou conta do meu coração e eu comecei a golpear em direção ao miliciano!
A primeira pancada acertou o seu maxilar!
Ele cambaleou para tráz!
A segunda acertou em cheio a sua têmpora direita!
Uma fúria acompanhada de ódio se apossou de mim e eu comecei a golpeá-lo na cabeça,ate que o mesmo largou a faca e caiu no chão desfalecido!
Assim que o miliciano caiu,uma poça de sangue começou a se formar sob ele!
O sangue jorrava de seu crânio em abundância!
- Filho da puta!!!- berrou o outro miliciano,jogando a menina no chão e partindo para cima de mim -
Ele veio rápido,desferiu um chute que acertou um rim.
Em seguida ele me deu um soco na cabeça!
Eu cai desnorteado,sentindo uma enorme dor do lado esquerdo da cintura!
Ele começou a me chutar!
Os chutes acertavam minhas costelas,minha cabeça!
- Eu vou te matar seu filho da puta!! - berrava ele -
O miliciano se abaixou,pegou a faca que estava caída ao lado do corpo do companheiro e se aproximou de mim!
- Vou cortar a sua cabeça seu filho da puta!!!- disse ele entre os dentes -
A minha cabeça girava e doía!
Uma náusea tomou conta do meu estômago!
Ele agarrou os meus cabelos,levou a faca ate o meu pescoço!
O primeiro som foi o de um estampido seco!
O segundo foi o de algo metálico caindo no chão!
Uma explosão de sangue saiu do lado esquerdo da cabeça do miliciano.
Ao mesmo tempo seus olhos viraram para cima,deixando um branco sem vida dentro das órbitas!
Ele cambaleou um pouco e caiu de lado,sem vida!
Eu conseguia ouvir a minha pulsação nos ouvidos!
Olhei em direção a entrada da rua.
Ali havia alguém em pé.
Ele usava uma daquelas máscaras que se usaram muito nas manifestações contra o governo,ainda antes da ditadura!
Olhos negros sem vida,bochechas saltadas e um sorriso sinistro completavam a figura!
A pessoa ainda estava com a mão direita levantada!
Ela empunhava uma pistola 9 mm!
Aquele que salvara minha vida enfiou a pistola na cintura e a escondeu com a camiseta.
Os olhos negros e sem vida me fitaram por mais alguns segundos.
Eu ergui a mão em sinal de agradecimento.
Ele se voltou para a rua e saiu andando rápido.
Vários focos de dor tomavam conta do meu corpo!
O maior deles era sobre o rim esquerdo,onde o miliciano havia acertado o chute!
Eu me levantei com dificuldade me apoiando na parede do prédio.
cambaleei ate a menina que se encontrava de cócoras junto á parede e chorando.
- Calma!- disse -
- Tenha calma...acabou!
Ela levantou os olhos lentamente para mim.
- Eu vou te ajudar...me da a mão...
A menina estendeu a mão direita tremula.
Ela se apoiou em mim e se levantou.
- Onde você mora? - perguntei -
- Na próxima esquina...- respondeu ela soluçando -
- Eu te ajudo...vamos...
Saímos da rua sem saída para a avenida principal.
Eu levei a menina ate o segundo quarteirão.
- Obrigada!Muito obrigada!- disse ela -
- Tudo bem...vá para casa...eu fico olhando daqui...
Acompanhei o trajeto da menina com os olhos ate que ela entrou em um pequeno portão de grade.
A dor de cabeça havia aumentado,a dor no rim também.
Era uma dor que latejava.
Voltei-me em direção contrária e comecei a ir para casa.
Em dado momento vi algo que fez o meu coração gelar!
Era uma viatura da milícia que vinha pela rua.
Os milicianos vinham devagar,ouvindo funk em um volume muito alto.
Procurei endireitar meu passo,pois a dor me impedia de andar direito.
Eles passaram por mim.
A agonia aumentava,pois,se eles vissem os corpos dos outros milicianos na rua sem saída,com certeza viriam para cima de mim!
Firmei o passo,respirava com dificuldade.
Olhei para traz e para o meu alívio,vi que a patrulha miliciana passava direto pela rua sem saída e virava na esquina seguinte!
Os milicianos não estavam lá para patrulhar nada!
Eles estavam lá em busca de vítimas!
Sorte a menina já ter entrado em casa,senão ela seria atacada novamente!
Os sete andares ate o meu apartamento nunca foram tão penosos!
Quando cheguei no meu andar eu me encostei na parede para recobrar o fôlego e deixar a dor passar um pouco.
O sangue da camisa já manchava a cintura da minha calça.
Quando entrei no apartamento,Genovildo,sentado no seu banquinho de plástico branco,perguntou,sem mudar a expressão do rosto:
- Ôxe!!Que foi isso homem??
- Fui assaltado! - respondi -
- É...tá foda ai fora...tá foda...
Respondeu ele coçando a barriga.
Fui para a "minha parte" do apartamento.
Assim que minha mulher me viu entrou em pânico.
- Meu deus,Cleber,o que houve???
Fui ate a cozinha passando por ela e me sentei.
A minha mente ainda rodava e estava confusa com tudo o que havia acontecido.
Lembrei da cena dos milicianos tentando violentar a menina,lembrei da expressão do miliciano com a faca na mão!
Aquele miserável iria me matar sem dó nem piedade!
Levei a mão ao rosto e comecei a chorar!
Minha mulher sentou-se ao meu lado me amparando .
- Cleber...você esta sangrando...o que houve?Você esta todo machucado!!
Eu mordia o punho da mão enquanto chorava!
Não conseguia me controlar!
Passaram-se alguns minutos ate que eu pude contar em sussurros á minha mulher o que realmente havia acontecido!
- Meu deus! - disse ela- Os milicianos não vão vir atras de você??
- Não...eles nem viram os corpos caídos lá...
- Você precisa ir para um hospital meu amor!
- Para que??Para ficar horas esperando e não ser atendido?
- Isso é um corte superficial...eu mesmo dou um jeito!
Fiz uma sutura com linha e agulha de costura e improvisei um curativo com um retalho de pano e fita crepe.
No dia seguinte me dirigia para o trabalho.
Quando me aproximei da rua sem saída,avistei uma viatura da milícia e uma rádio patrulha da polícia militar.
Ao me aproximar,reconheci Sargento Santos que conversava com algumas pessoas.
Ele agradecia ás pessoas e em seguida,voltou-se para mim.
- Bom dia Cleber.
- Bom dia sargento.
Ele apontou rapidamente para o interior da rua sem saída.
- Sabe algo sobre isso? - perguntou -
Estiquei o pescoço em direção ao final da rua,como se quisesse ver o que tinha lá.
- Não senhor...o que houve?
Santos me olhou nos olhos e esboçou um leve sorriso.
- Parece uma disputa ente milicianos...eles vivem disputando território entre si...deve ser isso...apenas dois milicianos mortos...
- Sei...
- Viu alguma coisa?
- Não senhor...
- Muito bem...esta mancando...o que houve?
- Cai na escada do prédio ontem!- respondi -
- Sei!- disse Santos - Tome mais cuidado...o BRASIL precisa de " bons brasileiros"...
Na hora eu não entendi o que o Sargento Santos quis dizer com aquilo!
Eu só viria a entender mais tarde!
Me despedi dele e tomei meu rumo ate o ponto de ônibus para trabalhar...

( Fim da parte 4,continua na parte 5 )

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