O NACIONALISTA ( Parte 8 )
Doutor Helio estacionou a sua surrada Pajero junto a entrada principal do quartel da milícia.
Era quarta feira,dia de visitar os prisioneiros políticos.Dia de ver quem estava vivo,quem estava morto ,quem ainda aguentava mais algumas sessões de tortura e quem precisava ser tirado dali !
No início Dr. Helio odiou o trabalho!
Mas com o passar do tempo ele havia descoberto que poderia usar a sua autoridade de médico para salvar algumas vidas!
Não que ele pode-se intervir de alguma forma no sistema de reclusão do regime,mas ele podia dar pareceres e a única forma de um preso político sair do quartel da milícia era morto!
Como sempre ele começou pelas celas do primeiro andar.
Em toda a sua suja e nojenta historia,o comunismo era conhecido pela crueldade com a qual tratava seus presos!
Não havia sexo,não havia cor,não havia idade,não havia condição física!Se a pessoa era considerada inimiga do regime,fosse quem fosse ou como fosse,era presa e torturada ate a morte!
A situação era muito pior para as mulheres,que sofriam toda a sorte de humilhações nas mãos dos milicianos!
E foi justamente uma dessas mulheres que fez com que o dia do Dr.Helio termina-se mais cedo.
Ele chegou diante da cela de número 112,olhou pelo visor da porta e de lá já pode ver o estado lamentável em que se encontrava a prisioneira.
Era uma mulher com idade perto dos 35,estatura mediana,pele clara.
O seu corpo nu estava de bruços no chão frio e sujo da cela.
Ela tinha as mãos amarradas ás costas.
Manchas roxas de hematomas , vergões vermelhos e marcas de mordidas se espalhavam por sua pele.
A sujidade de sangue entre suas pernas já denunciava o estado em que ela deveria estar e os horrores que havia sofrido.
O rosto era uma massa desforme que misturava hematomas roxos,bolsas de sangue,cortes e uma pasta de pó misturada com sangue.
Helio entrou na cela,deu alguns passos e parou ao lado do corpo da mulher.Ele se abaixou,segurou o seu pulso e com muito esforço conseguiu sentir um fio de vida que com certeza não aguentaria muito tempo.
Ele olha para traz na direção da porta,nenhum miliciano estava ali.
Ele então se abaixou o máximo que pode e disse em voz baixa:
- "Se você consegue me ouvir,faça sim com a cabeça!"
Reunindo as últimas forças ,a mulher fez lentamente com a cabeça um movimento de "sim" .
- Escute - continuou Dr.Helio - Só há uma forma de sair daqui,você só sairá daqui morta!Portanto,você vai ter que morrer para sair daqui,entendeu?
A mulher repetiu o mesmo movimento.
Helio tirou do bolso do jaleco branco um estilete com o qual cortou a corda que amarrava os pulsos da mulher.
Em seguida ele usou o seu celular para falar com um amigo.
Os profissionais liberais que trabalhavam para o governo tinham a regalia de possuir celulares.Eles eram grampeados e monitorados vinte e quatro horas,mas,com o passar do tempo a necessidade ensinava a usar palavras e códigos para driblar a censura comunista.
Quase uma hora depois um rabecão encostava na frente do quartel.
O chefe do plantão da milícia acompanhava o amigo de Helio ate a cela.
- Por que ele esta aqui? - perguntou o miliciano á Helio -
- Ele veio me ajudar a retirar esse corpo...vou levá-lo para a faculdade.
- Espere!- disse o chefe miliciano - Tem certeza de que ela esta morta?
- Toda a certeza do mundo...acho que ela aguentou ate demais!
O chefe da milícia ficou olhando por alguns segundos para o corpo jogado no chão.
- E eu?Não levo nada nisso?- perguntou ele,pedindo propina -
- Claro!- disse Helio enfiando a mão no bolso da calça - Eu ganho,cem Fidélis por cadáver...que eu tenho que dividir com o meu amigo aqui...fazemos assim,eu fico com quarenta,ele com quarenta,e o senhor com vinte...o que acha?
Helio disse isso e estendeu a mão para o chefe miliciano segurando uma nota de vinte.
O miliciano recebeu a nota dizendo:
- Vinte Fidélis por cada defunto...acho um bom negocio...
- Mas veja - disse Helio - Eu tenho que verificar se estão nas condições que precisamos...se vocês começarem a matar gente a torto e direito para ganhar dinheiro,podem acabar estragando a "mercadoria".
- Não se preocupe camarada doutor...a escolha dos corpos ficara por sua conta.
Helio sorriu .
O chefe da milícia saiu da cela enfiando o dinheiro no bolso.
Helio e seu amigo colocaram a mulher na maca e a levaram para fora ate o rabecão.
Antes de fechar as portas Helio disse á mulher:
- Por favor,aguente mais um pouco...eu vou salvá-la!
Helio fechou as portas traseiras do rabecão,deu duas pancadas na lataria e o motorista arrancou em direção á rua.
Helio entrou na Pajero e seguiu logo atras dele.
Eu nunca gostei da milícia federal.Havia criado uma antipatia por eles desde a implantação da ditadura comunista.
Todo mundo sabia que a milícia era formada por marginais que haviam sido tirados da prisão pelo governo petista.Essa era a razão pela qual eles perseguiam os cidadãos de bem e volta e meia batiam de frente com a PM.
E seria justamente o meu atrito com a milícia que me levaria a enveredar os caminhos da luta contra o comunismo!
Eu apressei o passo ao saltar do ônibus.
No caminho já se ouvia os trovões que anunciavam uma grande chuva.
Muitos relâmpagos clareavam o céu e a rua que ao cair da noite ficava ás escuras.
Os três milicianos estavam na mesma calçada em que eu vinha,eles espancavam um idoso ,um senhor o qual eles haviam descoberto ser um ex policial militar.
Enquanto eu me aproximava da cena já vasculhava os chão em procura de algo que me service de arma.
Para meu azar nem um ferro,nem pedaço de pau.Mas próximo á sarjeta havia uma pedra de concreto,algo do tamanho de uma caneca mais ou menos.
Eu me abaixei e peguei a pedra,indo em direção ao grupo.
Os milicianos estavam tão acostumados com o medo do povo que eles nunca imaginavam que alguém poderia vir para cima deles.
A dor e os ferimentos do meu último encontro com os milicianos haviam me ensinado uma coisa;os milicianos sangravam e também morriam!
A única coisa que eu via era o corpo do idoso caído no chão recebendo chutes!
Eu respirei fundo,apertei a pedra com força na mão e desferi o golpe!
Ouviu-se um baque surdo,o miliciano atingido caia no chão emitindo um gemido.
Aos poucos o sangue começava a escorrer pelo ferimento empapando o cimento da calçada.
Outro veio em minha direção golpeando com um cacetete .Ele atingiu minhas costelas e meu braço esquerdo!
O próximo golpe atingiria a minha cabeça,mas com um movimento rápido eu consegui desferir um golpe com a pedra que o acertou no rosto.
Ele cambaleou para o lado!
Eu desferi um segundo e um terceiro golpe na cabeça dele,mas o ataque to terceiro miliciano me fez perder a pedra.
Ele avançou para mim com chutes e golpes de cacetete !
Eu revidava com chutes e socos!
Em dado momento eu consegui segurar o braço do miliciano que levava o cacetete,e em um gesto não calculado consegui atingir seus testículos com uma joelhada!
O seu olhar demonstrou a grande dor que sentia!
Tomei o cacetete de sua mão e numa sequencia insana de golpes terminei de derrubá-lo no chão!
O clarão dos relâmpagos iluminava a rua e o cenário de sangue sobre a calçada.
A chuva forte começava,acompanhada de muitos trovões.
Água e sangue escorriam pela calçada em direção á sarjeta!
Eu fiquei parado ali,segurando o cacetete,olhando para os corpos no chão.
Eu ouvi o idoso gemer,corri ate ele e me abaixei.
- Calma...calma,eu vou chamar alguém...eu vou conseguir ajuda...calma!
Nem foi preciso!
Antes mesmo de me levantar ouvi o barulho de um carro que encostava no meio fio.
Era a viatura do sargento Santos.
As portas se abriram,Santos e sua equipe saltaram para a rua.
- O que houve aqui? - perguntou Santos com a arma em punho -
- Eles estavam espancando esse senhor...ele precisa de ajuda!
Santos se aproxima .
- Puta que pariu!!- exclama Santos - É o Major Telles...ele é oficial aposentado da polícia!
- Pode ser ate Papai Noel - eu disse - ele esta mal!
- Nogueira!- gritou Santos para um soldado - Pede uma ambulância e fica aqui de guarda junto com o Major!
- Sim senhor,sargento! - respondeu o PM -
Santos olhou para os corpos dos milicianos .
- Você derrubou esses caras?
- Sim senhor...- respondi -
- Eu vou ter que levar você comigo!- disse Santos -
- Mas...eu salvei a vida dele...- argumentei -
Mesmo que eu tivesse salvo a vida do ex PM ,Santos tinha que cumprir com a sua obrigação !E a sua obrigação era me levar preso!
Mas na verdade,eu não havia entendido ainda quando Santos disse "vou ter que levar você comigo"!
- Sargento,a ambulância esta a caminho,senhor! - disse o PM Nogueira se aproximando de nós -
- Fique aqui com o Major e o acompanhe ate o hospital...avise a família dele!
- Sim senhor,sargento!
- Você - disse Santos se voltando para mim - entra na viatura!
Obedeci!
Mas ao invés de entrar na gaiola traseira,Santos me colocou junto com os outros dois PMs no banco de traz .
Imaginei irmos para a delegacia ou para o quartel da milícia,mas,após rodar alguns minutos,entramos em uma rua escura.
O motorista encostou e desligou o motor.
Santos virou-se para mim e começou:
- É a segunda vez que o vejo envolvido em mortes de milicianos!
- Não...eu...eu nunca me envolvi...
- Você estava na cena da morte dos milicianos da rua sem saída que eu sei!- interrompeu Santos -
Fiquei em silêncio.
- Eu vou te fazer uma pergunta e quero que responda com toda a sinceridade!
- Pode fazer!
- Você odeia o comunismo?Odeia esse regime sujo,esse governo corrupto que destruiu o BRASIL?
Olhei firme nos olhos de Santos e respondi:
- Odeio!Odeio de todo o meu coração!
- Estaria disposto a fazer parte de um grupo de combate ao comunismo?
Eu me senti um personagem de filme de ação.
- Combate ao comunismo?
- Sim!- disse Santos - Um grupo de combate ao comunismo!
- Eu acho que eu...aceitaria sim...
- Acha ou tem certeza??- perguntou Santos -
- Sim!Eu quero me unir a vocês e lutar contra o comunismo!
- Pois bem - disse Santos - Eu vou te deixar aqui,vá para casa e me encontre aqui novamente as vinte e duas horas em ponto!
- Mas pense bem!Se você realmente quer entrar na luta,venha!Se não tiver certeza,não precisa vir!
O PM sentado á minha direita abriu a porta da viatura e saiu.
Eu saltei em seguida,ele voltou a entrar na viatura e bateu a porta.
- Não se esqueça - disse Santos - pense bem antes de decidir!
Ele bateu continência para mim,o motorista deu a partida e a viatura se foi.
A água da chuva escorria pelos meus cabelos e pelo meu rosto.
Minhas roupas já estavam encharcadas.
Eu olhei as luzes vermelhas das lanternas traseiras da viatura que virava a esquina.
Havia acabado de salvar a vida de um homem e de tirar a vida de outros três!
Era a vida de um brasileiro pela vida de três comunistas!
Agora eu tinha encontrado quem eu procurava e o meu coração já sabia o que queria!
Dei meia volta e fui para casa caminhando sob a chuva na escuridão da noite.
Fim da parte 8,continua na parte 9.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
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